Mimimi

Karina Gols




Sumi do mapa. Estava com mimimi. Sabe aquela coisa de passar o dia e a noite na cama dormindo? É... essa coisa que chamam de depressão? Esse mimimi? Pois é... peguei o tal do mimimi.


Quatro meses dentro de casa, lendo jornais online e assistindo YouTubers comentando sobre as pessoas que morrem de uma gripezinha que alguns alarmistas chamam de pandemia.


Aqui nos Estados Unidos são quase 120.000 pessoas que não tiveram passado atlético ou que são velhos demais e morreram desse treco. Mas não se espantem. Desesperar jamais. Estão dizendo que tudo está sob controle e começaram até a reabrir creches na Califórnia, onde eu moro.


Brasil, minha terra natal, também foi vítima dessa conspiração. Os números? Que números? Ah, sim,... os números que precisam ser recontados. Tá bom... Conhecidos meus e da minha família não tomaram cloroquina e morreram. E uma amiga teve um tio que mesmo tomando a tal da cloroquina morreu. Talvez se tivessem comido alho todos eles estariam de pé agora.


Em meio a toda essa confusão e um bando de fake news, ainda houve um brutal assassinato de um homem negro por um policial branco. Por que, gente? Por que ficam falando de racismo sistemático nos EUA? Que coisa tosca.


Protestos. Quebra-quebra. Se não precisasse ir à farmácia, continuaria de mimimi, vestindo moletom, dormindo de dia e de noite. Mas precisei sair de casa semana passada. Dei de cara com as janelas e portas dos estabelecimentos comerciais cobertas por tapumes de madeira.


Quando fiz meu pedido, a assistente do estabelecimento disse que não tinha. "Você sabe,... a loja foi saqueada e está faltando tudo". Sorte minha que achei uma última caixinha, escondida, que conseguiu se livrar do furto e comprei o que precisava.


Entrei no carro, e, ao passar pelo meu salão de beleza, percebi que eles fecharam as portas. Para sempre. Fiquei triste pois conheço a proprietária e as cabelereiras. Triste? Que nada. Mimimi. Puro e simples.


Fui ao supermercado. Mais tapumes. Estavam fechando mais cedo e me falaram para ir a outro supermercado da mesma rede que estaria aberto. Lá fui eu. Tapumes por todos os cantos. E enquanto dirigia, reparava que esses tapumes eram um símbolo de igualdade da desigualdade. Tanto a loja da AT&T quanto pequenos negócios foram saqueados.




Voltei para casa, e como de costume, entrei pela garagem, onde deixamos os sapatos e lavamos as mãos. Tirei cuidadosamente a máscara e meus óculos, higienizei os produtos que comprei, coloquei todas as minhas roupas na máquina e adentrei minha casa como a Lady Godiva cavalgava em seu cavalo em Coventry.


Banho e moletom. Cama. Muita dor nas costas - meu calcanhar de Aquiles. Heating pad sobre as omoplatas. Heating pad é o substituto elétrico do antigo "saco de água quente". Abusei da Gabapentina. Que fique claro, não aconselho o abuso de remédios, tá? Mas eu estava de mimimi.


"Papai, a mamãe na cama com dor", escutei.

Isso é de partir o coração. Ah, não,.. desculpe,... é mimimi da minha parte.


A exasperação, impotência e a raiva que eu não exibo (sou do tipo que dá o boi e a boiada para evitar um conflito) se transformaram em um abscesso sob a cicatriz da minha tireoidectomia.


De um dia para o outro ele cresceu de forma absurda. Dor. Muita pressão pois estava inflamado e cheio de pus. Medo de ir ao consultório clínico e me infectar com o coronavírus. Duas consultas por telefone e vídeo e os médicos receitaram Bactrim por 10 dias para esse outro mimimi.


Não conseguia nem virar o pescoço. Talvez tenha sido a infecção que sequestrou as minhas forças e me deixou acamada. Sabe como é,... um mimimi puxa o outro.


Quanto mais eu procurava informações sobre a situação atual, mais debilitada, quer dizer, mais mimimi eu sentia.


Minha cidade aqui na Califórnia teve toque de recolher às seis da tarde por alguns dias. Foi um dos locais mais atingidos por vandalismo durante os protestos.


Depois, ainda leio sobre três casos estapafúrdios envolvendo crianças no Brasil: o do elevador (em Recife) e o de duas meninas, uma de 16 e outra de seis anos (ambos ocorridos pela internet). Não quero tocar nesses assuntos porque meu coração de mãe sente uma dor tamanha, maior do que todas as outras que já estava sentindo, como a dor crônica nas costas e agora, a dor do tal do abscesso. Uma revolta, um embrulho no estômago, ou, em outras palavras, um mimimi incomensurável.


Queria muito escrever sobre todos esses assuntos justo quando estavam ocorrendo, mas não sabia como. Eu conheço o preconceito de perto. Sou mulher, latina, judia, imigrante, sobrevivente de violência doméstica e sofro de transtorno de estresse pós-traumático . Mas isso tudo também é mimimi, né?


Continuei de cama. Os artigos e vídeos destinados à publicação aqui no Quarentenas.com começaram a se acumular no inbox, mas meu mimimi me algemou à cama e simplesmente me impedia de fazer qualquer coisa. Estava prostrada e nada conseguia me levantar.


Liguei para a Analu Nadaz, também membro do time do Quarentenas.com. Além de ser uma boa amiga, ela é terapeuta holística (foi minha terapeuta por anos) e ela disse que abscessos tem a ver com raiva e a área do pescoço com comunicação.


"Raiva? Eu?" Lembrei de um comercial de shampoo anti-caspa. Mais mimimi.


Depois entendi: eu implodi.


Ontem conversei com a minha médica e expliquei, envergonhada, que tinha abusado da Gabapentina e precisava de mais porque estava impossibilitada de sair da cama, de tanta dor que estava sentindo nas costas. Carinhosamente ela explicou que me entende e não havia problema em enviar à farmácia uma nova receita. Que Deus a abençoe. Não há nada mais precioso que um médico que possui compaixão.


À noite tomei uma dose alta, e hoje acordei uma outra pessoa. De manhã tomei meus remédios para a dor, meu antidepressivo, meu hormônio para a tireóide ausente e fiquei com a família na nossa cama, brincando até ir à sala e arrumá-la. Consegui sair da cama. Viva! Está na hora de voltar a trabalhar no Quarentenas.com. Temos muitos artigos e vídeos agendados para os próximos dias.


Peço desculpas pela minha reclusão, quer dizer, meu mimimi, e não ter postado nossos artigos e vídeos por alguns dias. Ou semanas. Não contei o tempo. Sou a única do time que trabalha com o Wix, nossa plataforma de site e blog. Nosso time é pequeno e cada uma de nós tem uma função. A minha é de agendar os posts, atualizando o blog diariamente.


Acontece que estamos cercados de tragédias que.me afetam profundamente. Os protestos continuam aqui nos Estados Unidos. E nos últimos dias houve outro brutal assassinato de um homem negro pela polícia.Queria falar alguma coisa sobre isso, mas me faltam palavras. Deve ser mais um desses meus mimimis.


Bom, para quem não entendeu o sarcasmo, vou desenhar: passei por uma crise de depressão que acabou por me deixar paralisada e impossibilitada de trabalhar. Tem gente que acha que depressão é mimimi. Que a pandemia é uma conspiração ou que o vírus foi intencionalmente criado em um laboratório chinês. Que o número de fatalidades é inferior ao que já foi reportado. Que gente jovem, bonita e saudável não pega COVID-19 e não morre. Tem mais é que sair às ruas e trabalhar, mesmo não sendo profissional da linha de frente. Se ficar doente ou virar vetor, paciência. Que há uma enorme quantidade de leitos hospitalares vazios. Que devemos priorizar a economia, esquecendo que morto não compra. Morto não move a economia. Talvez o segmento funerário. É, ... caixões, cremações, cerimônias. Morto não briga por papel higiênico em supermercado. Não recebe ajuda de 600 Reais. Morto está morto. Vira número, estatística. Sem cara, sem corpo. O morto pela pandemia perde sua individualidade, sua história. Perdeu literalmente sua vida. Toda sua vida. "Mas, e daí", não é?


Acho que a Analu acertou: Estou com raiva sim. Raiva de uma pandemia extremamente séria, tratada com um descaso imoral. Como um problema sanitário global se torna alvo de posicionamento político? É como comparar futebol a uma lata de sardinhas. Não dá liga. Pandemia é pandemia. Política é política. Sou só eu que acho de uma estupidez, de uma ignorância, de uma ganância desmedida e até maldade mesmo misturar essa crise global à política sendo que um é água e outro é óleo? É de um desdém, uma negligência, um pouco caso... De burrice mesmo.


Talvéz eu esteja enganada. Talvez seja mimimi da minha parte mesmo.


Não dá. Eu realmente não entendo. Não cabe na minha cabecinha esse desapreço pela vida. Em prol de quê? Meu Deus! Está tudo fora de ordem. Os valores se inverteram. Como se o dinheiro, pense bem, papel impresso, e a moeda, muitas vezes chamada de "vil metal" comandassem os valores morais. E começarem a ditar as medidas sanitárias de cada país.



Não nego a importância do trabalho e do sustento para termos um teto sobre nossas cabeças e comida na mesa. De um pezinho de meia para as surpresas da vida. Não há nada de errado nisso.


Errado é mandar as pessoas para as ruas e criar vetores para o vírus. Errado é superfaturamento de material de necessidade vital e usar uma crise para roubar dinheiro público e enriquecer ilicitamente.


Sempre escutei que caixão não tem gaveta. A única tumba que eu saiba que guardava tesouros eram as pirâmides onde os faraós eram embalsamados. E já foram, em sua maioria, roubados.


Mas não quero deixar que a raiva vença. Juro.


O antibiótico vem fazendo efeito e o abcesso está diminuindo, embora tenha que tomar uma segunda dose por mais sete dias. Sem problema. Só quero paz. A vingança é descomedidamente amarga.


E no final das contas, como aquela parábola do lobo bom e do mal diz, ganha o lobo que a gente alimentar. Então escuto um sussurro em meus ouvidos, como um conselho vindo do além, com o Renato Russo cantando no meu ouvido a resposta que eu precisava escutar: "é só o amor... é só o amor..."




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* Karina Gols é profissional de Comunicação Internacional com mais de 25 anos de experiência, estudou Cinema & Televisão (Roteiro) na Universidade de Tel Aviv, e é poliglota. Foi articulista da Tribuna da Imprensa, trabalhou em gigantes como a Rede Globo, Edelman, Petrobras, Google (YouTube) e CNA - Confederação Nacional de Agricultura (assessoria de imprensa internacional pela The Information Company, nos EUA). Reside na Califórnia, Estados Unidos e redigiu posts para o blog da organização sem fins lucrativos Pacific Southwest Community Development Corporation. Gosta de ver o lado positivo das coisas, mantendo o bom humor. Mas tá dificil esses dias...

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